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Pentest13 min de leituraAtualizado em Por Cesar Gargiulo

Metodologia de pentest: das regras de engajamento ao reteste

O que separa um teste de invasão de um relatório de scanner é o método. Esta é a estrutura que usamos e as referências públicas que a sustentam.

Duas propostas de pentest com o mesmo preço e o mesmo prazo podem entregar resultados muito diferentes. A diferença raramente está na ferramenta usada, porque todo mundo usa mais ou menos as mesmas. Está em quanto do trabalho é manual, em quantos perfis de acesso são realmente testados, no que acontece quando o testador encontra algo fora do escopo e em se o reteste está incluído ou é orçado depois.

Este guia descreve a metodologia fase a fase, o que cada fase produz e como ela se conecta às referências públicas do setor. A intenção é dupla: permitir que quem contrata avalie propostas com critério e permitir que times internos usem a mesma estrutura para conduzir uma avaliação própria.

O recorte é defensivo. Você vai encontrar as classes de falha procuradas, o tipo de evidência que sustenta cada achado e o critério de classificação de risco. Não vai encontrar técnica de exploração passo a passo, porque isso não ajuda quem defende e ajuda quem não deveria ser ajudado.

Escopo e regras de engajamento

Nada começa sem autorização formal por escrito. Essa é a fronteira entre um teste de segurança e um acesso não autorizado, e ela não é negociável. O documento de autorização precisa nomear quem autoriza, quais alvos entram, em que janela o teste acontece e quem é o ponto de contato dos dois lados durante a execução.

Alvos hospedados em provedores de nuvem seguem também a política de teste do provedor. Na AWS, a maior parte dos testes em recursos do próprio cliente é permitida sem solicitação prévia, com exceções explícitas para simulação de negação de serviço e para alguns serviços gerenciados. Vale conferir a política vigente antes de fechar o escopo, porque ela muda.

O que o documento de escopo precisa responder

  • Alvos por domínio, faixa de IP, conta de nuvem ou aplicação, com o que está explicitamente fora
  • Perfis de acesso fornecidos e quantos usuários de cada perfil, quando o teste é autenticado
  • Janela de execução e horários em que atividades mais ruidosas são permitidas
  • Limite de impacto: o que não pode ser testado em produção e o que exige ambiente de homologação
  • Canal e prazo de comunicação imediata em caso de achado crítico ou de indício de comprometimento prévio
  • Tratamento de dados encontrados durante o teste, incluindo dados pessoais
  • Quem executa o trabalho e quem responde tecnicamente por ele

Um erro comum é definir escopo por quantidade de URLs. Aplicação moderna gera URL dinamicamente e o número não diz nada sobre esforço. O que dimensiona o trabalho é a quantidade de funcionalidades distintas, de perfis de acesso e de fluxos que movimentam dado ou dinheiro.

Reconhecimento e mapeamento da superfície

A fase de reconhecimento levanta o que existe antes de decidir onde gastar tempo. Em teste externo, isso inclui subdomínios, serviços expostos, tecnologias em uso e informação pública que ajude a montar o cenário. Em teste autenticado, inclui percorrer a aplicação com cada perfil e registrar cada função disponível.

O resultado dessa fase é um inventário do alvo, não uma lista de vulnerabilidades. É esse inventário que evita o problema mais comum de um teste malfeito: descobrir depois que uma parte inteira da aplicação nunca foi olhada porque ninguém sabia que ela existia.

levantamento de superfície com registro do que foi visto
# serviços expostos no alvo autorizado, com identificação de versão
nmap -sV -Pn --top-ports 1000 -oA evidencias/recon-externo alvo.exemplo

# certificado atual: nomes alternativos revelam hosts esquecidos
openssl s_client -connect alvo.exemplo:443 -servername alvo.exemplo </dev/null \
  | openssl x509 -noout -text | grep -A1 "Subject Alternative Name"

# cabeçalhos de resposta: pilha, cookies e políticas declaradas
curl -sSI https://alvo.exemplo/ | tee evidencias/headers-raiz.txt

Todo comando executado fica registrado com data e alvo. Esse registro serve para três coisas: reconstruir o que foi feito se algo der errado no ambiente, provar que nada foi executado fora do escopo e permitir que o reteste repita exatamente a mesma verificação.

Modelagem de ameaça e priorização do esforço

Com o inventário na mão, o esforço é distribuído. Testar tudo com a mesma profundidade seria a forma mais cara e menos eficiente de gastar a janela contratada. A pergunta que orienta é simples: onde um comprometimento causa mais dano ao negócio?

Em uma aplicação de e-commerce, isso costuma ser o fluxo de pagamento, a área de conta do cliente e qualquer painel administrativo. Em uma plataforma multiempresa, é a fronteira entre inquilinos. Em um sistema interno de RH, é o acesso a dados pessoais de funcionários. O modelo de ameaça define onde o teste manual se concentra.

Onde o esforço se concentra por tipo de alvo
Tipo de alvoFronteira mais críticaFalha que mais aparece
Aplicação web com múltiplos perfisSeparação entre perfis e entre contasAutorização quebrada em objeto direto (IDOR)
API REST ou GraphQLValidação de entrada e escopo do tokenAutorização a nível de objeto e exposição excessiva de dados
Plataforma multiempresaIsolamento entre inquilinosIdentificador previsível permitindo acesso cruzado
Ambiente AWSIdentidade e exposição públicaPermissão ampla permitindo escalonamento de privilégio
Rede internaSegmentação e acesso administrativoCredencial reutilizada e serviço legado sem atualização

Execução: automatizado e manual têm papéis diferentes

Ferramenta automatizada cobre volume. Ela encontra componente desatualizado, cabeçalho ausente, configuração fraca de TLS e as injeções mais evidentes. Isso é útil e economiza tempo, mas é também a parte do trabalho que qualquer um consegue reproduzir com uma licença de scanner.

A parte que exige pessoa é a que depende de entender o negócio. Um scanner não sabe que trocar o identificador do pedido na requisição de segunda via de nota fiscal expõe documento de outro cliente, porque a requisição responde 200 nos dois casos e nada no protocolo indica erro. Falha de lógica, quebra de autorização e encadeamento de falhas menores em um caminho de ataque real são território de teste manual.

  • Autenticação: fluxo de recuperação de senha, expiração de sessão, segundo fator e enumeração de usuário
  • Autorização: acesso horizontal entre contas do mesmo perfil e vertical entre perfis diferentes
  • Entrada: injeção em consulta, comando, template e desserialização, com validação manual do que o scanner apontou
  • Requisição do lado servidor (SSRF) e acesso a metadados de instância em ambiente de nuvem
  • Lógica de negócio: alteração de preço, quantidade negativa, salto de etapa em fluxo de várias telas
  • Exposição de dado sensível em resposta, log, mensagem de erro e cabeçalho

A exploração é controlada. O objetivo é comprovar que a falha é real e medir o impacto, não causar dano. Isso significa parar assim que a prova estiver feita, evitar alteração de dado de produção e nunca extrair mais informação do que o necessário para demonstrar o problema.

Mapeamento às referências públicas

A metodologia não é proprietária. Ela se apoia em referências públicas que qualquer fornecedor sério usa, e conhecê-las ajuda a comparar propostas. Um relatório que cita o identificador do teste no OWASP WSTG permite que a sua equipe leia a mesma descrição na fonte.

Referências por fase do teste
FaseReferência públicaO que ela cobre
Escopo e planejamentoPTES, seções de pré-engajamentoDefinição de alvo, regras de engajamento e comunicação
ReconhecimentoNIST SP 800-115Estrutura de avaliação técnica de segurança em quatro etapas
Teste de aplicação webOWASP Web Security Testing Guide (WSTG)Casos de teste identificados por código, de configuração a lógica de negócio
Teste de APIOWASP API Security Top 10As dez classes de falha mais frequentes em interfaces de programação
Requisitos de verificaçãoOWASP ASVSNível de rigor esperado por tipo de aplicação
Descrição de técnica adversáriaMITRE ATT&CKVocabulário comum para táticas e técnicas observadas
Classificação de severidadeCVSS v3.1 e v4.0 (FIRST)Vetor e nota base, ajustada pelo contexto do ambiente

Evidência: o que sustenta um achado

Achado sem evidência é opinião. E evidência mal registrada é o motivo mais comum de um relatório ser contestado pela equipe de desenvolvimento, o que atrasa a correção e desgasta a relação entre as partes.

  • Passos de reprodução numerados, que qualquer pessoa da equipe consiga seguir
  • Requisição e resposta relevantes, com dado sensível mascarado no relatório
  • Captura de tela quando o efeito é visual, com identificação do ambiente e da data
  • Conta ou perfil usado no teste, para distinguir acesso legítimo de acesso indevido
  • Delimitação clara do que foi comprovado e do que é consequência plausível não testada

A última linha importa mais do que parece. Um relatório honesto separa o que foi demonstrado do que seria possível. Escrever que a falha permite acesso ao banco inteiro quando só se comprovou acesso a um registro é o tipo de exagero que faz uma equipe técnica desconfiar de todo o resto do documento.

Classificação de risco: CVSS não é a resposta final

CVSS dá uma nota base a partir de características técnicas da falha. Ela é útil como vocabulário comum e péssima como critério único de priorização, porque não conhece o seu ambiente. A mesma falha com nota 7.5 pode ser urgente em um endpoint público e irrelevante em um serviço acessível apenas por VPN de administrador.

Por isso a severidade final combina três coisas: a nota técnica, a exposição real do ativo e o valor do que está atrás dele. Um relatório útil explicita esse ajuste em vez de esconder a decisão atrás de um número.

Severidade final e prazo de tratamento sugerido
SeveridadeCritério de enquadramentoPrazo sugerido
CríticaExplorável sem autenticação, com acesso a dado sensível ou execução de códigoCorreção imediata, comunicação durante o teste
AltaExplorável com credencial de usuário comum, com impacto em dado de terceirosAté 15 dias
MédiaExige condição específica ou entrega impacto limitadoAté 30 a 60 dias
BaixaImpacto indireto ou dependente de outra falha para ser útilPróximo ciclo de manutenção
InformativaBoa prática não adotada, sem impacto direto demonstrávelBacklog, sem prazo

Os prazos acima são um ponto de partida. Cada empresa ajusta conforme a criticidade do sistema, o ciclo de release e a capacidade da equipe, e o importante é que o prazo esteja escrito em algum lugar antes do primeiro achado aparecer.

Relatório e reteste

O relatório tem dois públicos com necessidades opostas. Quem decide investimento precisa de um sumário executivo que diga em poucas linhas qual é o risco e o que muda se nada for feito. Quem corrige precisa de detalhe suficiente para reproduzir e resolver. Misturar os dois em um texto só faz com que nenhum dos dois seja atendido.

O reteste fecha o ciclo. Ele verifica se a correção resolveu a causa e se não introduziu comportamento novo, e é a única forma de transformar uma lista de achados em redução de risco comprovada. Um teste sem reteste entrega diagnóstico sem confirmação de tratamento.

  • Correção que trata o sintoma e não a causa: bloquear um identificador específico em vez de validar a autorização
  • Correção aplicada em um endpoint e esquecida nos outros que compartilham o mesmo defeito
  • Validação feita apenas no navegador, com a regra ausente no lado servidor
  • Reteste executado em ambiente diferente daquele onde a falha foi encontrada

Checklist prático

  • Autorização formal por escrito, assinada por quem tem poder para autorizar
  • Escopo com alvos, exclusões, janela e limite de impacto documentados
  • Política de teste do provedor de nuvem verificada quando o alvo está hospedado
  • Canal de comunicação imediata definido para achado crítico
  • Perfis de acesso e credenciais de teste entregues por canal seguro
  • Inventário da superfície registrado antes do início dos testes de exploração
  • Modelo de ameaça definindo onde o esforço manual se concentra
  • Registro datado de comandos e requisições executados
  • Evidência por achado com passos de reprodução verificáveis
  • Severidade justificada com nota técnica e contexto do ambiente
  • Sumário executivo separado do detalhe técnico
  • Reteste acordado no contrato, com prazo e escopo definidos
  • Destruição ou devolução de dados de teste ao encerrar o trabalho

Boas práticas

  • Fixe o escopo por funcionalidade e perfil de acesso, não por quantidade de URLs
  • Peça credenciais de todos os perfis: teste autenticado cobre mais em menos tempo
  • Combine antes o que fazer se o testador encontrar sinal de comprometimento anterior
  • Trate achado crítico durante o teste, sem esperar o relatório final
  • Exija que o relatório separe o que foi comprovado do que é consequência plausível
  • Inclua reteste no contrato inicial em vez de orçar depois
  • Guarde o relatório como documento controlado: ele é um mapa do que ainda não foi corrigido

Erros comuns

  • Contratar teste em caixa preta com prazo curto para um alvo grande

    Boa parte da janela é consumida em reconhecimento e áreas inteiras da aplicação ficam sem cobertura, sem que isso apareça no relatório.

  • Testar apenas com um perfil de acesso

    A classe de falha mais frequente em aplicação web é quebra de autorização, e ela só aparece comparando o que perfis diferentes conseguem alcançar.

  • Tratar a nota CVSS como decisão de priorização

    Falhas de nota alta em ativos irrelevantes consomem a fila enquanto falhas de nota média em sistemas expostos continuam abertas.

  • Deixar o reteste para um orçamento posterior

    Sem validação da correção, o ciclo termina em lista de tarefas e a redução de risco nunca é comprovada.

  • Não definir o tratamento de dados encontrados durante o teste

    Dado pessoal acessado em uma prova de conceito pode ficar em evidência sem controle de retenção, criando um problema de proteção de dados a partir do próprio teste.

Quando procurar apoio especializado

Se o teste vai avaliar um sistema que movimenta dinheiro, guarda dados pessoais em volume ou sustenta uma operação que não pode parar, a definição de escopo e o limite de impacto importam tanto quanto a execução. Nesses casos vale conduzir o trabalho com quem já fez o mesmo tipo de teste antes e consegue explicar por que cada decisão de escopo foi tomada.

Perguntas frequentes

Qual metodologia de pentest a GUARDIASEC segue?

A estrutura descrita neste guia: escopo e autorização formal, reconhecimento e inventário da superfície, modelagem de ameaça, execução combinando ferramenta e teste manual, registro de evidência, classificação de risco ajustada ao contexto, relatório em duas camadas e reteste. As fases se apoiam em referências públicas como OWASP WSTG, OWASP ASVS, PTES e NIST SP 800-115, citadas nas fontes deste guia.

Qual a diferença entre metodologia e ferramenta?

Ferramenta é o que executa uma verificação. Metodologia é o que decide quais verificações fazer, em que ordem, com qual profundidade e o que fazer com o resultado. Dois fornecedores usando o mesmo scanner entregam relatórios muito diferentes conforme o método, porque a parte do trabalho que encontra falha de autorização e de lógica de negócio não é automatizável.

O teste pode indisponibilizar o ambiente?

O risco existe e é gerenciado pelo escopo. Técnicas potencialmente disruptivas ficam de fora por padrão e só são executadas com autorização explícita, preferencialmente em ambiente de homologação. Janela acordada, limite de impacto documentado e canal de comunicação aberto durante a execução reduzem esse risco a um nível controlado.

Preciso de teste em caixa preta para o resultado ser válido?

Não. Caixa preta simula melhor o desconhecimento de um atacante externo, mas gasta parte da janela em reconhecimento. Quando o objetivo é profundidade de análise dentro de um orçamento definido, informar contexto e fornecer credenciais dos perfis existentes cobre mais superfície no mesmo tempo. O formato deve seguir a pergunta que motivou o teste.

Quanto tempo depois do teste o reteste deve acontecer?

Depende do prazo de correção acordado por severidade. Uma prática comum é agendar o reteste depois que os achados críticos e altos foram tratados, tipicamente entre 30 e 60 dias após a entrega do relatório. Retestar cedo demais desperdiça o ciclo, e retestar tarde demais permite que o ambiente mude a ponto de a comparação perder sentido.

Autoria e revisão

Cesar Gargiulo

CEO e fundador da GUARDIASEC. Responsável técnico e editorial pelo conteúdo publicado nesta biblioteca.

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